Fim da escala 6×1 pode encarecer fretes e impactar abastecimento no Brasil

  • Em 6 de março de 2026

A proposta de extinguir a escala de trabalho 6×1 — em que o trabalhador atua seis dias e descansa um — tem gerado preocupação entre entidades do setor produtivo. Representantes do transporte, indústria e comércio alertam que a mudança pode provocar aumento de custos operacionais, escassez de mão de obra e impactos no abastecimento de produtos.

A discussão ganhou força após o governo federal indicar o tema como uma das prioridades legislativas para 2026. Atualmente, duas propostas em tramitação no Congresso Nacional preveem a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 36 horas.

Segundo especialistas e representantes empresariais, eventuais mudanças no modelo atual podem gerar reflexos significativos na economia, afetando custos, produtividade e geração de empregos.

Possíveis impactos da mudança na jornada de trabalho

A eventual extinção da escala 6×1 exigiria reorganização das jornadas e adaptação das operações em diversos setores da economia.

Entre os principais impactos apontados pelas entidades estão:

  • aumento dos custos operacionais das empresas

  • pressão sobre a folha de pagamentos

  • necessidade de contratação de novos trabalhadores

  • possível aumento de preços ao consumidor

  • risco de queda na produção e na atividade econômica

Para o advogado trabalhista Cid de Camargo Júnior, a mudança exigirá uma reestruturação relevante das empresas.

Segundo ele, a reorganização das escalas pode demandar novas contratações para manter os níveis de produtividade, o que tende a elevar despesas com salários e encargos trabalhistas.

Setor de transporte teme impacto no abastecimento

A Confederação Nacional do Transporte acompanha a tramitação das propostas e defende que qualquer alteração na jornada seja conduzida com cautela.

De acordo com a entidade, o setor de transporte possui características operacionais específicas e já enfrenta dificuldades para repor mão de obra qualificada. A redução da jornada sem considerar essas particularidades poderia ampliar o déficit de profissionais.

A confederação destaca ainda que o transporte é uma atividade estratégica para o país, responsável por viabilizar o deslocamento de pessoas e mercadorias e garantir o abastecimento nacional.

Na avaliação da entidade, mudanças abruptas na jornada podem elevar custos e comprometer a regularidade dos serviços prestados à população.

Outro ponto mencionado é o impacto sobre o setor público, que também poderia precisar ampliar contratações para manter serviços essenciais.

Transporte de cargas alerta para escassez de motoristas

O Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região também manifestou preocupação com a proposta.

Segundo o sindicato, o transporte rodoviário de cargas é fundamental para a distribuição de alimentos, medicamentos e bens de consumo em todo o país. Alterações estruturais na jornada de trabalho poderiam afetar diretamente a logística nacional.

Entre os principais pontos levantados estão:

  • escassez de motoristas profissionais

  • prazos rígidos de coleta e entrega

  • necessidade de cumprir contratos logísticos

  • impacto direto no custo do frete

A entidade afirma que a redução da jornada, sem aumento proporcional da mão de obra disponível, tende a diminuir a produtividade por trabalhador e elevar os custos operacionais das empresas.

Como consequência, esses custos podem ser repassados ao preço final dos produtos.

Indústria têxtil teme perda de competitividade

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção também demonstrou preocupação com mudanças amplas na jornada de trabalho.

Para a entidade, qualquer alteração deve ser precedida de avaliação técnica detalhada sobre seus impactos na economia, na produtividade e na geração de empregos.

O setor têxtil é intensivo em mão de obra e enfrenta forte concorrência internacional. Segundo a associação, medidas que aumentem custos sem ganhos de produtividade podem ampliar a desvantagem competitiva das empresas brasileiras.

A entidade defende que o tema seja tratado por meio de negociação coletiva entre empregadores e trabalhadores, permitindo ajustes conforme as características de cada setor.

Projeções indicam aumento significativo de custos

Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria indica que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas pode gerar impacto significativo na economia.

Segundo o estudo, os custos com empregados formais poderiam aumentar entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano, o que representaria acréscimo de até 7% na folha de pagamentos.

O cálculo considera dois cenários possíveis:

  1. manutenção da produção com pagamento de horas extras

  2. contratação de novos trabalhadores para suprir a redução da jornada

No setor industrial, o impacto poderia ser ainda maior, chegando a até 11,1% da folha salarial, dependendo da estratégia adotada pelas empresas.

Setores mais afetados pela redução da jornada

O levantamento também aponta que alguns segmentos da economia tendem a ser mais impactados pela mudança.

Entre eles estão:

  • indústria da construção

  • setores intensivos em mão de obra

  • micro e pequenas empresas

De acordo com as projeções, mais de vinte setores industriais poderiam registrar aumento de custos acima da média da indústria.

A redução da jornada também elevaria o valor da hora trabalhada para contratos atuais que superam quarenta horas semanais.

Impactos possíveis no crescimento econômico

Especialistas alertam que a redução da jornada sem compensação de produtividade pode gerar efeitos amplos na economia.

Entre os possíveis resultados estão:

  • aumento do custo do trabalho

  • queda da produção

  • redução da competitividade das empresas brasileiras

  • impacto negativo no emprego e na renda

Na avaliação de representantes do setor industrial, essa dinâmica poderia resultar em queda da atividade econômica e do Produto Interno Bruto (PIB).

Debate sobre a jornada de trabalho continua no Congresso

A discussão sobre a escala 6×1 faz parte de um debate mais amplo sobre a modernização das relações de trabalho no Brasil.

Enquanto defensores da proposta argumentam que a redução da jornada pode melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, setores produtivos pedem cautela e defendem que eventuais mudanças sejam discutidas com base em estudos técnicos e diálogo entre governo, empresas e trabalhadores.

O tema ainda está em análise no Congresso Nacional e deverá continuar no centro do debate econômico e trabalhista nos próximos meses.

Fonte: R7

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